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O impacto do documentário: a liberdade

Sexta-feira, 13.11.09

 

Se o impacto do cinema se revela na metáfora, na parábola, na poesia, o impacto do documentário revela-se na voz dos próprios ou nos testemunhos de quem com eles conviveu. É o impacto da realidade na primeira voz. Mas tanto o cinema como o documentário nos podem revelar a realidade, só que por caminhos e perspectivas diferentes.

 

O documentário apoia-se nos registos reais de som e de imagem, e leva-nos ao local, quase podemos sentir a atmosfera, as sensações. É certo que pode ter de se apoiar em poucos registos, podem até ser apenas vestígios, e ter de colar tudo até encontrar um fio, uma sequência, uma história real ou que se aproxime da realidade. A criatividade está na sua montagem e na qualidade do texto do narrador. Também pode limitar-se ao simples registo em tempo real.

 

Hoje vou referir um documentário, Fúria da Liberdade, que vi por mero acaso, hoje à tarde, na TVCine 2. Apanhei-o já a meio, julgo eu, mas fiquei presa à história real: Jogos Olímpicos de 1956, na Austrália, finais de Novembro.

A equipa de pólo aquático da Hungria vê-se apanhada de surpresa: o seu país tinha sido invadido pelos soviéticos. O documentário vai-nos mostrando as diversas reacções dos atletas ao drama: voltar ao seu país ou desertar.

O treinador deu-lhes a possibilidade de representar o seu país nas diversas provas, fosse qual fosse a sua decisão individual no final dos Jogos. Alguns voltaram, outros aproveitaram para não mais voltar. Até recentemente, mas já depois de 1991, quando finalmente os russos abandonaram o território. Oito dos atletas da equipa húngara e dois da equipa soviética irão reencontrar-se passados tantos anos.

 

Voltando aos torneios, o confronto com a equipa soviética chegou a ser violento. Para já, era um confronto simbólico. Acabou ingloriamente com um atleta húngaro ferido, o Zador (registei o nome, não é magnífico?), mas com a vitória para os húngaros. Que sairiam da Final com a Jugoslávia, com a medalha de ouro, apesar da ausência de Zador. É ainda hoje considerada uma das melhores equipas de sempre de pólo aquático.

 

O documentário abrangeu igualmente a difícil situação dos húngaros sob o domínio soviético, as traições, as denúncias, as prisões, as sentenças de morte. O testemunho de uma sobrevivente à prisão, voltar ao local, ver os nomes dos companheiros mortos numa placa numa parede.

E o testemunho da viúva de outro, viúva aos 25 anos, que guardara para sempre a casca da última laranja, descascada pelo marido, na sua última visita na prisão, a da despedida.

 

Mas o que mais me impressionou, no documentário, é o valor liberdade. Todos os atletas húngaros que recordaram aqui esses Jogos Olímpicos e o que significaram para si, destacam o valor liberdade acima de todos os outros, como condição intrínseca de ser humano. Zador, que aceitara o convite dos EUA, refere mesmo que a opção não foi difícil e que nunca se arrependeu: De que me valia ser um dos maiores atletas olímpicos de boca amordaçada?

 

Damos tão pouco valor à liberdade, e não me refiro apenas à liberdade de exprimir a nossa opinião, mas a de decidir das nossas vidas...

Às vezes é um documentário como este que nos vem acordar para a nossa própria realidade de criaturas a caminho da domesticação.

Liberdade é respirar, diz Zador exemplificando, a inspirar profundamente, com um sorriso juvenil. A liberdade é podermos ser quem somos, diz outro atleta. Esta é, a meu ver, a melhor mensagem do documentário, as várias perspectivas de liberdade, como necessária à própria existência de cada indivíduo, sem a qual não pode ser feliz nem realizar-se plenamente.

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 22:01








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